O Estado sou eu

José Pastore
Instalou-se no Brasil, entre os Poderes, o relacionamento de mútua dependência comum nas gangues criminosas: 'Não me denuncie porque eu te denuncio’

Não podia ter sido mais oportuno o lançamento do livro A oligarquia dos poderes e a crise da democracia, do meu amigo Joaquim Falcão. Está ali uma explicação simples e dolorosa da crise atual. Falcão mostra que o Brasil não está sendo ameaçado de fora para dentro – por ditadores sanguinários. Ao contrário, a nação vem sendo solapada por dentro e, mais especificamente, por autoridades que deveriam protegê-la.
No Poder Executivo, há os que roubam os aposentados. No Legislativo, os que se apoderaram de emendas bilionárias. No Judiciário, os que se locupletam trocando favores com agentes do sistema financeiro. Numa palavra, o Estado brasileiro foi capturado por oligarcas e sua parentela que vivem para servir a si próprios – com honrosas exceções.
Não é surpresa verificar que esses oligarcas dependem uns dos outros. Por isso, são competentíssimos na autoproteção. Falcão ilustra bem isso: os legisladores têm dezenas de pedidos de impeachment contra os magistrados e estes têm dezenas de ações judiciais contra os legisladores. Os governantes do Poder Executivo vivem a mesma dicotomia. Instalou-se no Brasil o relacionamento de mútua dependência que é comum nas gangues criminosas. “Não me denuncie porque eu te denuncio.”
A formação desse acordão, além da sua perversidade moral, tem um impacto destruidor no campo econômico. Na imprevisibilidade os investidores se retraem. Eles detestam situações em que a lei é rigorosa e a sua administração é frouxa e indecorosa. Ao retraírem, eles atrasam a expansão da economia e a geração de bons empregos que certamente seriam úteis para atenuar o sofrimento dos mais pobres.
Esse é o estado de anomia em que vivemos. As autoridades são legais, mas não são legítimas. Como diz Falcão, elas só se tornam legítimas quando os atos legais se transformam em benefícios concretos para o povo. Mas isso não ocorre em clima de escandalosa promiscuidade como o atual. Sem instituições legais e legítimas, o País não progride.
Fala-se muito que no Brasil “as instituições funcionam”. Falta dizer que elas funcionam bem para a dinastia dos oligarcas que vivem no mundo da lobbycracia. São elas que mandam e desmandam, porque na sua visão e na prática “L’État c’est moi”.
É isso que se viu nos últimos dias, tendo o Supremo Tribunal Federal (STF) como a estrela maior do pavoroso show de horror que continua em cartaz. Desse jeito, o Brasil não tem a menor chance de dar certo.
José Pastore, Professor da FEA-USP, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP. É membro da Academia Paulista de Letras
Artigo Publicado em “O Estado de S. Paulo”, em 24 de setembro de 2026.




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